Agroecologia: uma construção coletiva do conhecimento

Coraly Salazar, do CIPCA, da Bolívia, Roselita Victor, do Polo da Borborema, Irene Cardoso, da Universidade Federal de Viçosa, e Juan Camajá, do Fundebase, da Guatemala

AS-PTA/Brasil – 

Por Claudia Guimarães

Uma grande roda, acompanhada de cântico e dança – durante a qual se invocaram valores como solidariedade e respeito – inaugurou as atividades do terceiro dia do Seminário da Aliança pela Agroecologia, realizado em Brasília, entre os dias 3 e 6 de maio de 2017.

A construção do conhecimento agroecológico e o diálogo inter-saberes foram os temas centrais da mesa de abertura, que foi mediada por Coraly Salazar, responsável pela Unidade de Ação Política da organização boliviana CIPCA – que faz parte da Aliança pela Agroecologia.

Roselita Victor, da coordenação política do Polo da Borborema, na Paraíba, mostrou como a agroecologia tem permitido que os agricultores rompam um histórico processo de invisibilidade social, política e econômica. Acrescentou que esse efeito transformador é sentido, particularmente, pelas agricultoras: “A construção da visão agroecológica gerou um debate que não havia sobre a evolução do papel das agricultoras. No Polo da Borborema temos demonstrado que as mulheres têm capacidade e podem assumir um papel de protagonista na construção da agroecologia”.

A agricultora também destacou que, entre os princípios que norteiam a agroecologia, está a construção coletiva do conhecimento. “Nosso conhecimento é formado a partir do olhar dos agricultores, valorizando seu acúmulo de experiência, assim como sua capacidade de fazer a leitura da realidade e de participar ativamente no debate das políticas públicas para o território”. Nessa visão, ressaltou, é fundamental o intercâmbio de conhecimentos. “Os agricultores agroecológicos colocam sua experiência a serviço dos outros. Vemos isso claramente no trabalho dos guardiões das sementes nativas, que chamamos de Sementes da Paixão”.

Roselita lembrou ainda que os agricultores sempre promoveram inovação na sua relação produtiva com a terra, mas lamentou que essa capacidade de encontrar soluções inovadoras tenha sido tradicionalmente ignorada ou desvalorizada. “Por isso, a importância dos estudos e diagnósticos que fazemos no Polo da Borborema. Hoje, temos mais de 400 experiências sistematizadas e, principalmente, compartilhadas”.

Para o coordenador regional da organização guatemalteca Fundebase – que faz parte da Aliança pela Agroecologia – Juan Carlos Camajá, a promoção da agroecologia passa, entre outras ações, pela valorização da experiência dos agricultores mais velhos. “Estamos resgatando esse conhecimento ancestral fazendo entrevistas com nossos avôs. Perguntamos como se alimentavam antes, como plantavam e colhiam, como processavam a comida. Também temos utilizado as feiras e mercados agroecológicos como ferramentas para mostrar aos consumidores que é possível se alimentar de forma mais saudável e diversificada. Além disso, nas nossas visitas às escolas, compartilhamos receitas tradicionais, que estavam antes esquecidas”, relatou.

Outra importante frente de atuação do Fundebase tem sido o combate ao machismo na sociedade guatemalteca. “Em nosso país as mulheres – e isso naturalmente se aplica às agricultoras – têm uma carga tripla de trabalho. Dentro das nossas possibilidades, estamos tratando de melhorar essa realidade. Mas não podemos enfrentar essa questão só empoderando as mulheres. Temos que incluir os homens, que resistem às mudanças. Por isso, estamos trabalhando com eles o conceito de novas masculinidades”, relatou Juan Carlos.

O papel dos pesquisadores

O painel continuou com a exposição de Irene Cardoso, presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA). “A agroecologia é, ao mesmo tempo, movimento, práticas e ciência. Mas é uma ciência que não nasceu a partir da academia. Foi construída a partir da prática dos agricultores”, afirmou.

A professora do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa lembrou que a agricultura é um conjunto de ideais, valores, crenças e conhecimentos. “Portanto, não concordamos com a visão de que a produção agrícola é  um negócio para gerar lucro”.

Ao abordar a posição da academia, Irene afirmou que ensino, pesquisa e extensão devem estar articulados para contribuir para a transformação da sociedade. Também defendeu que o pesquisador vá ao campo com um olhar atencioso e uma escuta profunda. “Nossa linha de trabalho coloca ênfase nos intercâmbios, inspirados no Programa De Campesino a Campesino, da Nicarágua e da Guatemala. Fazemos a mobilização da comunidade, caminhamos pelas propriedades, conversamos com as famílias, compartilhamos seu cotidiano. E os resultados dessas pesquisas são depois sistematizados e devolvidos, mediante oficinas, reuniões, encontros, etc. As pessoas não podem ser objeto de pesquisa, mas sim atores, numa perspectiva de pesquisação”.

Entre as ações que fazem parte dessas pesquisas, estão mutirões e caravanas. “São peregrinações que percorrem diferentes lugares, observando o que ameaça o território. Assim, conseguimos um olhar coletivo sobre o território e seus problemas”, explicou. Por último, Irene criticou a ideia de que o conhecimento seja neutro. “Isso não é verdade. O conhecimento não é neutro. Mas a falta de neutralidade não significa ausência de ética”, enfatizou.

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FOTO: Aline Adolphs

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